O conceito de biografia
Quando pensamos na palavra biografia, é comum pensarmos em histórias de vida. Pensamos em livros que contam as vidas de personalidades conhecidas, cujos relatos de aventuras, desafios e conquistas nos fascinam. Tais relatos costumam ser feitos após a morte da pessoa e têm um efeito de tributo e homenagem à vida dos biografados. No entanto, existem muitas outras dimensões implicadas na palavra biografia.
Em contraste com a palavra VIDA, somos remetidos a outro ritmo — vivemos a vida hoje, numa sequência de agoras. A vida pulsa em nós e nela estamos imersos, como que no fluxo de um rio. Mas conforme vamos vivendo na dimensão do espaço-tempo, vamos realizando nosso destino. E conforme vamos amadurecendo, nos deparamos com momentos de crise, e sentimos a angústia da estagnação. Vivemos uma perda significativa, uma ruptura existencial que nos traz sofrimento. Nós nos sentimos presos, sem saber ao certo como seguir. Esses são os momentos em que recebemos da alma um precioso convite: o de pesquisar a própria existência, de assumir uma postura de reflexão sobre a vida até então vivida e se abrir para a auto transformação ao longo desse processo.
É esse movimento que transforma vida em biografia. Dito de outro modo, o ato biográfico desacelera, convida à perspectiva e à reflexão sobre as forças e os processos que estiveram e estão em curso, se materializando em padrões ora mais ou ora menos conscientes que nos levam a realizar nosso destino.
Se tomamos o ato de biografar como refletir, então o trabalho biográfico representa, nas palavras do professor Jonas Bach,
“uma dinamização das reflexões sobre o viver, com o intuito de levantamento de dados, percepção de padrões existenciais, reconhecimento do que foi ou vem sendo típico em sua caminhada existencial.”
(Bach, 2019, p.235)
A biografia humana e sua dinâmica arquetípica
A Antroposofia, ciência espiritual fundada pelo filósofo Austríaco Rudolf Steiner, é a base filosófica do trabalho biográfico. Trata-se de uma resposta filosófica ao materialismo radical que se instaurou na visão de mundo e na concepção de homem na virada do século XIX com a separação entre corpo e espírito.
Para Steiner, o ser humano é um ser essencialmente espiritual que vive um processo encarnatório em um corpo físico indissociável de seu espírito, também chamado de ‘Eu’, a individualidade de cada ser humano único, e que possui, assim, sua biografia também singular. Nesse sentido, a biografia de cada ser humano tem uma dimensão individual, mas também tem uma dimensão arquetípica compartilhada por todos os seres humanos.
O processo biográfico
Sobre o processo biográfico, o professor Jonas Bach nos diz que
“no âmbito reflexivo, o processo biográfico é uma investigação para averiguação e constatação de leis biográficas, de parâmetros arquetípicos que influenciam as contingências experimentadas pelo indivíduo. Entre o universal, a lei arquetípica da biografia, e o particular, o modo como o destino individual se expressa, está o escopo de possíveis transformações a serem realizadas pelo sujeito que intensifica sua relação com o mundo, com a vida.”
(Bach, 2019, p.235)
O Encontro Biográfico faz parte das experiências que intensificam a relação sujeito — mundo — vida. Em meu próximo texto, falarei sobre os arquétipos e as leis biográficas que são a base da potência transformadora do Encontro e do Trabalho Biográficos.
Referências:
BACH JR., J. O trabalho biográfico como fonte de aprendizado: autoeducação e fenomenologia de Goethe. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 35, n. 74, p. 233-250, mar./abr. 2019 DOI: 10.1590/0104-4060.61760
BACH JR., J. Fenomenologia de Goethe e educação: a filosofia da educação de Steiner. Curitiba: Lohengrin, 2017.
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