Todos nós acreditamos que somos quem somos, com nosso nome e sobrenome, CPF, e nosso corpo individual. Podemos nomear como ‘identidade’ esse conjunto de crenças sobre nós mesmos e isto nos passa uma sensação de concretude, de estabilidade diante da vida. No entanto, somos menos concretude e mais movimento, menos estabilidade e mais metamorfose. Eu ‘estou’ muito mais do que ‘sou’. Em outras palavras, somos um conjunto de forças e processos em constante devir. Partindo dessa ideia, a Antroposofia nos traz a imagem da biografia humana como um fenômeno vivo, um conjunto de forças e processos que é tão única como cada individualidade.
Desenvolvimento humano
Como um fenômeno humano vivo constituído pela atuação do indivíduo no mundo, a biografia humana engloba dinâmicas de desenvolvimento. Todo ser vivo está sujeito a processos de mudança, de crescimento e de desenvolvimento. Bernard Lievegoed discute as diferenças entre mudança, crescimento e desenvolvimento. Para ele, “‘Desenvolvimento’ é o crescimento no qual mudanças estruturais ocorrem em pontos críticos através do sistema.” (Lievegoed, 1980, p.19) Referindo-se ao desenvolvimento biológico dos seres vivos, Lievegoed explica que este é sempre dirigido com uma finalidade. Dito de outra forma, todo ser vivo se desenvolve em direção a atingir a forma predeterminada do organismo adulto.
Quando falamos de desenvolvimento humano, entretanto, falamos de três padrões distintos de desenvolvimento: desenvolvimento biológico, desenvolvimento psicológico e desenvolvimento espiritual. Essas três categorias de desenvolvimento humano refletem a organização trimembrada do ser humano segundo a Antroposofia, quais sejam: corpo, alma e espírito. Nas palavras de Lievegoed:
“De um lado há o polo da corporalidade, a partir da qual desejos e impulsos se tornam discerníveis na alma. De outro lado há o polo espiritual, onde a alma está no campo da mente, num mundo divino-espiritual de fato. Aqui, através da autopercepção e na atribuição de sentido à vida, o verdadeiro eu do homem como ser espiritual é observável na alma. (…) O pensar está mais diretamente ligado ao mundo do espírito, enquanto o querer está mais intimamente envolvido com o mundo físico do corpo. O sentir está no centro, sendo, para muitas pessoas, a verdadeira qualidade da psique.”
Lievegoed (p. 19, 1980)
Podemos, assim, considerar a constituição e os processos atuantes no mundo interior do ser humano segundo a trimembração na visão Antroposófica:
Espírito — Alma — Corpo
Pensar — Sentir — Querer
Trimembração na Biografia Humana
O curso da vida humana enquanto fenômeno vivo é constituído de fases. Segundo a sabedoria oriental, o homem leva 20 anos para crescer, 20 anos para lutar e 20 anos para se tornar sábio. No Trabalho Biográfico, consideramos que a vida humana se divide em períodos de sete anos, ou setênios, que se organizam em três grandes grupos de três setênios cada um. A seguinte imagem é bastante elucidativa das forças e dos processos atuantes em cada fase da nossa biografia.

Note que a imagem acima considera a vida humana até os 63 anos. Isto não significa que o Trabalho Biográfico não se aplique aos anos posteriores da vida humana. De fato, sabemos que atualmente, guardadas as particularidades socioeconômicas, o ser humano se tornou muito mais longevo, com expectativas de vida que ultrapassam os 80 anos. Existe um Trabalho Biográfico muito rico que pode ser feito também após os 63 anos que é o tema do livro “Amadurecer Luminoso” de Norbert Glas.
Uma observação importante precisa ser feita sobre essa imagem trimembrada da biografia humana que ilustra a metodologia que aplicamos ao longo do Trabalho Biográfico. Não se trata de entendê-la como algo prescritivo, como uma mera ferramenta de identificação de padrões exatos ocorrendo em momentos exatos de vida. O que temos nessa imagem é o conjunto visual das leis biográficas que regem a vida humana. No entanto, nunca devemos perder de vista a individualidade de cada um. Cada sujeito compõe e toca a sua sinfonia única de vida ao longo de seu desenvolvimento. O que as leis biográficas nos oferecem é uma base arquetípica a partir da qual podemos construir novos sentidos para as experiências vividas, alcançando entendimentos mais profundos das forças e processos que estão ativados em nós nas diferentes etapas da vida, e nos convidando a dançar com as forças formativas do nosso próprio destino.
Essa dança se torna mais bela conforme frutifica novos significados que, em última instância, nos levam a realizar o nosso pleno potencial de auto realização ao longo da vida. O que aqui chamo de dança, pode ser chamado de engajamento. Nas palavras de Jonas Bach, no Trabalho Biográfico “o indivíduo é solicitado a um engajamento integral de suas forças psíquicas (cognitivas, afetivas e volitivas) na resolução de impasses biográficos.” (Bach, p.240, 2019)
Nossa biografia é um jardim a ser cultivado. Assim como o agricultor cultiva o alimento em solo fértil, nós cultivamos nosso destino no chão do nosso ser. Podemos descobrir que nosso solo necessita ser cuidado, vivificado, para que possa (re)brotar novos processos. Então sabemos que um mergulho no Encontro Biográfico nos coloca em movimento rumo à realização de nosso pleno potencial de vida.
Em meu próximo texto, vamos mergulhar nos arquétipos que regem as leis biográficas de cada setênio nas diferentes fases de nossa biografia.
Referências:
BACH JR., J. O trabalho biográfico como fonte de aprendizado: autoeducação e fenomenologia de Goethe. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 35, n. 74, p. 233-250, mar./abr. 2019 DOI: 10.1590/0104-4060.61760
LIEVEGOED., B. Fases da Vida: crises e desenvolvimento da individualidade. São Paulo, Editora Antroposófica. 1984
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Uma resposta para “Forças e Processos”
[…] meu texto sobre “Forças e Processos”, eu apresento a ideia de que somos feitos de movimento, de ritmos e de respiração constante. […]
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