
O trabalho biográfico é uma semente criativa que germina no solo do meio da vida e que vai crescendo e tomando o chão dos tempos anteriores que vivemos – nossa infância, adolescência, juventude. Nesse movimento, essa nova planta encontra as memórias que florestam nossa alma de tudo o que vivemos quando éramos crianças, com nossos pais, irmãos, famílias.
Nos espaços em que fomos gradualmente nos constituindo, na escola, com colegas e professores, e nos espaços profissionais em que atuamos. Podemos nos dar conta de que existem territórios áridos e tristes, desprovidos de energia vital. Encontramos memórias que podem ser lindas florestas também. É no processo de caminhar pelos territórios do vivido, com os olhos, os pés e o coração de quem já teve tempo para colher frutos do vivido, que se reflorestam perspectivas presentes e futuras. Se hoje nos encontramos num lugar em que existem forças que atuam em nós, e que nos fazem sentir angústia, medo e auto dúvida, é o sinal claro, luminosos, que nossa alma está no enviando de que é chegada a hora de revisitar e reflorestar nossos territórios conquistados, histórias de nós mesmos que criaram belezas e dores.
O ato de revolver o solo de quem fomos nos permite fazer limpezas, fazer paz, ressignificar e reautorar histórias e pessoas em nossas vidas. Muitas vezes, nesse revolver, encontramos sementes ainda germinantes, e que tendo sido esquecidas por lá, talvez ainda possam achar chão novamente nas florestas do presente e do porvir. Gosto da metáfora botânica para falar desse trabalho, que é um caminhar descalço no chão de nosso ser, por todos os territórios por que passamos e cultivamos, admirando paisagens, visitando florestas, limpando, podando galhos secos, e encontrando novas sementes que talvez tenham estado lá desde o princípio de nosso ser, apenas aguardando o momento oportuno de florescer.
Fazer o trabalho biográfico é reflorestar a alma e o imaginário, revolver solos férteis e encontrar raízes e sementes que ainda podem germinar potência de vida em nós. Trabalho biográfico é caminhar e compostar o chão de nosso ser.
