A quatro dias de completar meus 50 anos, estou dando início à escrita de mim. Um sonho recente me volta à memória:
Estou deitada numa banheira de água fresca. O ambiente é claro e a água cristalina. Me levanto para sair da banheira. Me coloco de pé e estou prestes a sair da banheira quando sinto uma presença comigo na água. Olho para meu lado esquerdo e vejo uma serpente negra. Ela está serena e tranquila, apenas com a boca fora da água. Sinto meu coração acelerar com a visão dessa criatura poderosa e saio da água. A serpente é dócil e permanece tranquila, apenas com a boca fora d’água, como que espelhando meu movimento de sair da água. Mergulho uma bolsa na banheira e recolho a serpente com um pouco d’água nessa bolsa. Ela entra calmamente. Entrego a bolsa de água com a serpente negra a uma mulher toda vestida de branco que estava de pé, na ponta da banheira.
Ao acordar, escrevi o sonho em meu diário, hábito que desenvolvi ao longo da minha trajetória com minha psicoterapeuta junguiana. Ainda com a caneta nas mãos, eu sentia o coração acelerado tal qual no sonho com a serpente negra. O que sua presença poderia significar? Ao terminar meu registro onírico, fui consultar o Livro dos Símbolos, que mantenho numa pequena estante ao lado de minha cama, onde se encontram os meus mais queridos livros. Aprendo que a serpente é um ser espiritual, emblemático da força de vida primordial. Ela tem status de criadora cósmica e progenitora. Na mitologia, a serpente é a uma das formas de diversas deidades, dentre as quais estão Perséfone, Ísis e Kali. A serpente é uma representação do poder sobre a vida e sobre a morte; um espírito ancestral e mediadora do processo oculto da transformação. Chega-me a imagem de que havia me banhado na água que é fonte da vida, na água que representa o Sagrado Feminino, a Grande Deusa, assistida por uma sacerdotiza, a quem respeitosamente entrego a serpente negra que me abençoara nessa água sagrada da vida.
Desde esse sonho, muito têm se mobilizado em minha alma em torno do Feminino Consciente. Li pela primeira vez sobre a ideia do Feminino Consciente nos escritos da analista junguiana Marion Woodman. Podemos sentir o Feminino Consciente germinando naquela etapa de nossa individuação feminina em que, tendo nos tornado esposas ou companheiras de um homem, tendo constituído família e nos tornado mães, e tendo construído uma carreira bem sucedida, sentimos o tempo em nossos corpos. E estamos adentrando um território sagrado da individuação feminina: temos a oportunidade de nos tornarmos virgens novamente. Porém virgens no sentido espiritual do termo, no sentido de sermos “unas em nós mesmas,” de fazermos um caminho de volta para o chão de nosso ser, independentemente dos papéis que nós tenhamos desempenhado como mulheres em nossa sociedade patriarcal.
Como virgens novamente, temos a oportunidade de engravidarmos de novo. De gestarmos novas ideias, novos projetos, novas formas de estarmos no mundo como mulheres inteiras e unas-em-nós-mesmas. Estaremos, assim, no caminho de nos tornarmos velhas sábias. Estamos, na essência, gestando a nós mesmas e gestando o propósito da nossa biografia. Me dou conta de que o meu impulso rumo ao Feminino Consciente nasce também de uma pergunta existencial, feita pela mulher e mãe que sou, com minha filha adolescente no coração:
Quais espaços no mundo nossas filhas poderão, como mulheres, ocupar e sentirem-se realizadas e respeitadas?
Como podemos ser modelos de mulheres e sujeitos conscientes de nossa essência, criativas e com uma feroz auto-estima, amando nossos corpos e apoiando umas às outras na jornada da vida?
E ainda outra pergunta dessas de nos despertar para a nossa semente:
“O que significa ser mulher num mundo que é dos homens para aquelas de nós que não querem ficar em casa e sermos como nossas mães, nem lutar agressivamente e nos tornarmos ‘como homens’?”
Quais são as subjetivações desejadas para e por nossas filhas e netas?
A jornada rumo ao Feminino Consciente nos faz esse convite: de abraçarmos novas perguntas sobre quem queremos nos tornar, ainda que já tenhamos “cumprido” com as funções tradicionalmente colocadas às mulheres em nossa sociedade patriarcal. Quem podemos ser e que biografia podemos gestar após a menopausa; na verdade, principalmente após a menopausa, já que se trata de um portal que se abre para o nosso potencial espiritual em sua plena exuberância.
Sinto que comecei a trilhar o meu caminho rumo ao Feminino Consciente lá aos 42 anos, quando fui acometida por um câncer de estômago, e me vi forçada a parar a vida frenética de uma mulher vivendo agressivamente ‘como um homem’ sua vida profissional. Totalmente divorciada de meu corpo, anestesiada pelo ritmo que uma carreira bem-sucedida demandava de mim, o tumor me acordou do torpor, e me colocou cara a cara com a finitude. Foi assim que encontrei a minha semente-vermelha do Feminino Consciente, e assim ela começou a ser preparada para germinar – sob o fogo do medo da morte, mas principalmente – e foi essa a minha constatação – o fogo do medo de morrer sem sequer ter começado a viver.
Foi nesse fogo, vivido na crise da autenticidade dos 42 anos na biografia, que comecei a trilhar a volta para o meu corpo. Hoje, aos 50 anos, estou colhendo os frutos germinados ao longo desse setênio, abraçando a ideia de sonhar com um futuro em que eu possa me conectar com outras mulheres que estejam trilhando esse caminho de se tornarem virgens novamente, virgens grávidas e velhas sábias em toda a nossa exuberância, e donas de nossa própria história.
A minha biografia é uma jornada de profundidade, significado e devir. No chão do meu ser, germina a semente vermelha que frutifica os valores e as verdades que me nutrem e às quais retorno sempre:
• Cura através da presença e da escuta profunda
• A sacralidade da biografia e dos ciclos da vida
• Compaixão, integridade e verdade interior
• Serviço às mulheres e ao princípio feminino
• Transformação por meio do autoconhecimento e da integração
• Beleza, silêncio e a sabedoria da alma
