A Grande Mãe

Quando menina, lá dos 5 aos 9 anos, adorava brincar de bonecas. Colocava-as todas sentadinhas, uma ao lado da outra, num semi-círculo em torno de meu pequeno quadro negro. Brincava de professora, escrevendo listas de exercícios com giz colorido no quadro, e criando “fichas de exercícios” para elas preencherem. Minha mãe era pedagoga e orientadora educacional, e a educação estava no sangue das mulheres da família. Desde cedo floresceu o cuidar e o ensinar em minha jovem alma. Daí a sensação de que o desejo de ser mãe brotou em mim muito cedo. Me tornei mãe quando aos 35 anos, engravidei novamente após um aborto espontâneo de 8 semanas. Essa perda foi uma experiência muito marcante em minha alma e meu corpo de mulher. Por mais que meu obstetra explicasse o quão comum é esse tipo de evento na vida de tantas mulheres, nada me consolava, pois eu já havia ouvido o batimento cardíaco em meu ventre. Minha mãe me acompanhou ao longo do processo de constatação da perda e da curetagem, feita no consultório de meu obstetra, da forma menos invasiva possível. 

Meses depois, engravidei de minha filha. Uma gestação saudável em que experimentei a plenitude da experiência de gerar a vida dentro do próprio corpo, magia feminina. Julia nasceu forte e saudável, de parto natural, de cócoras, no ambiente hospitalar. Lembro-me de minha doula, a Carminha, sentada ao meu lado no banco de trás do carro do pai de minha filha, me apoiando e acalmando à caminho do hospital. As contrações estava intensas e já havia boa dilatação. Lembro-me de nossa risada juntas, Carmem e eu, quando depois do parto ela me diz “eu estava pronta pra fazer o parto da Julia no carro! Achei que não ia dar tempo de chegar no hospital!” Mas o corpo da mulher é um milagre. Não só deu tempo de chegar, como as contrações se acalmaram levemente, até que eu estivesse novamente em local seguro, cercada por minha doula, meu obstetra e o pai de minha filha na sala de parto.

A pequena veio com choro forte, um bracinho esticado para cima como quem quer sair voando! Força vital máxima. Mamou de imediato, mas levou um tempinho pra gente se afinar na embocadura e o mamar fluir lindamente. Fomos abençoadas, Julia e eu, de termos tido todas as condições de desenvolver um vínculo forte entre nós. Vivi momentos de comunhão divina em meu tempo vivendo nessa fusão mãe-bebê. Como é potente o arquétipo da Grande Mãe! A psicologia junguiana nos traz uma visão evolutiva da individuação humana. Segundo essa visão, as etapas da evolução da consciência da humanidade também ocorrem como estágios do desenvolvimento psicológico de cada um de nós, ao longo de nossa biografia pessoal. 

O 1º estágio é a “Consciência Matriarcal.” Todos nascemos de uma Mulher. Essa fusão total com o universo da Mãe-bebê é mágica e totalmente inconsciente. Tanto mãe quanto bebê estão mergulhados no mundo dos instintos e das sensações, e ainda não há limites claros separando o Eu do Outro, a criança da mãe. Nesse estágio da evolução da civilização humana, vivíamos em pequenos grupos ou clãs regidos pelo arquétipo da Grande Mãe, em comunhão total com a Natureza, vivendo da terra como caçadores-coletores. Temos notícia de alguns arqueólogos e historiadores de que esses povos agricultores veneravam uma deidade fêmea e não tinham inclinação ao conflito e à guerra. Esse estágio antigo e indiferenciado do desenvolvimento tanto do indivíduo quanto do coletivo personifica o princípio Feminino instintivo e inconsciente. A qualidade mítica dessas culturas está nesse senso de unidade com o mundo natural. Alguns pesquisadores sugerem que nossos mitos do Jardim do Éden e outros paraísos podem ter nascido dessa pouco conhecida era de nossa pré-história, ou do estágio de consciência matriarcal.

A conquista de uma vida profissional e intelectual é marco importante na biografia de muitas mulheres de hoje, e mesmo de muitas mulheres da geração de nossas mães. Na minha família, era claro que o meu pai era o provedor da casa; era ele quem saía para trabalhar, viajava para estudar, enquanto minha mãe paria três filhas, nos criava e cuidava da casa. Mas minha mãe se emancipou, e tendo sido a primeira e a única a ir para a universidade em sua família, construiu uma carreira como educadora e orientadora educacional na Secretaria de Educação do DF. Conforme ela ia crescendo asas, o relacionamento com meu pai foi se tensionando cada vez mais, até se romper, aos meus 11 anos.

A trajetória de minha mãe é a trajetória de insubmissão de tantas mulheres. Dela eu cresci ouvindo “conquiste sua independência, não dependa nunca de nenhum homem!” Assim, quando me tornei mãe, eu já tinha carreira e independência financeira, fruto do meu trabalho e do apoio de ambos meu pai e minha mãe. Após 4 meses de licença maternidade, retornei ao trabalho e segui investindo numa carreira bem-sucedida como professora e posteriormente, como gestora educacional. Mergulhada no mercado de trabalho de um sistema patriarcal, segui me afirmando profissionalmente e trabalhava muito, muitas vezes à exaustão. Havia uma busca por controle, por perfeição, por sempre melhores desempenhos. Assim caminhei, ou melhor, corri, até meu corpo me parar, aos 42 anos, como que me avisando “ou você para, ou paro eu.”

Deixe um comentário